quarta-feira, 26 de março de 2008

CONCEITOS DE MODERNIDADE

Raoul Hausmann . The Art Critic1919-1920

Hegel caracteriza a fisionomia dos tempos modernos pela subjetividade, explicando-a por meio da liberdade e da reflexão. A expressão subjetividade implica sobretudo 4 conotações: individualismo; direito à crítica; autonomia do agir (o fato de queremos nos responsabilizarmos pelo que fazemos); a filosofia idealista. Hegel considera a tarefa da filosofia no mundo moderno a apreensão da idéia que cabe a si própria[1].
O principio de subjetividade determina as configurações da cultura moderna. A arte moderna revela sua essência no romantismo, a forma e o conteúdo da arte romântica são determinados pela interioridade absoluta. Hegel no séc. XIX, discrimina acontecimentos - chaves da modernidade: a reforma, o Iluminismo, a revolução francesa.
Modernidade tem conotações de uma época enquanto que moderno tem um significado estético marcado pela auto-compreensão da arte de vanguarda. É na crítica estética que se toma consciência do problema de uma fundamentação da modernidade a partir de si própria. E isso torna-se claro quando se traça a história do conceito de moderno. Esta se inicia na querela ente os antigos e modernos no séc. XVIII, França, quando separam os critérios de um belo relativo dado pela história, gosto e costume, e um belo absoluto.
Baudelaire coloca que a experiência estética funde-se com a experiência histórica da modernidade. A obra de arte coloca-se na interseção entre os eixos da atualidade e da transitoriedade. A modernidade torna-se um conceito de uma atualidade que se autoconsome, estabelecido no centro da idade moderna. O dandy, personagem baudelaireano, procura algo de fugaz, a moda, a novidade, algo indefinido que Baudelaire denomina de “modernidade”. O dandy se interessa em extrair da moda tudo o que ela possa conter de poético no histórico e de eterno no efêmero.
Segundo Max Weber[2], a modernidade é produto de processos globais de racionalização, que se deram na esfera econômica, política e cultural. A racionalização econômica levou a dissolução de formas produtivas do feudalismo, formulando uma mentalidade empresarial moderna, baseadas no planejamento e contabilidade. O fim do feudalismo libertou a força de trabalho, facilitando a constituição do trabalho assalariado. A racionalização criou o Estado dotado de sistema tributário centralizado, legislação e militarismo centralizado, monopolizado.
Racionalização cultural envolve a dessacralização da visões de mundo tradicionais e a diferenciação em esferas de valor autônomas, até então embutidas na religião: estas esferas são a ciência, a moral e a arte.
A arte autônoma, fora do contexto da religião e tradicionalista em direção a formas cada vez mais dirigidas para o mercado.
Modernização significa principalmente aumento de eficácia visando aumento de autonomia (EMANCIPAÇÃO).
Este ponto de vista da emancipação decorre do Iluminismo, deriva de 3 configurações históricas: a ilustração, o liberalismo e o socialismo.
A idéia iluminista propunha estender a todos os indivíduos condições concretas de autonomia. Era universalista em sua abrangência, individualizante em seu foco (visa o sujeito), e emacipatória em sua intenção, o homem pode aceder a plena autonomia do pensamento, da política e da economia.

A DIALÉTICA DA VANGUARDA[3]
A idéia artística de vanguarda e o conceito de modernidade ou de cultura moderna são afins. Embora designem realidades distintas.
As vanguardas artísticas são determinados movimentos artísticos caracterizados por uma atitude social beligerante e mesmo agressiva, em todo caso de signo crítico. A razão de ser das vanguardas se estriba na oposição à tudo que seja opaco, reificado, alienação das formas culturais objetivas.
As vanguardas artísticas do séc. XX caracterizam-se pelo rigor com que assumiram a ruptura com o passado, afetando o conjunto da cultura afirmando o novo como exigência de renovação. Vanguarda a modernidade condicionam-se mutuamente; uma não existe sem a outra.
As vanguarda e sua relação com a cultura moderna com respeito à história. Foram as vanguardas que sancionaram a consciência histórica moderna, sua relação com o passado que orienta-se para empresas futuras, e para um progresso indefinido.
A crítica como objeto do repensamento da intersubjetividade leva a pensar a liberdade mediada pela reflexão. Hegel e Weber situam o problema da crítica como uma avaliação recíproca dos objetivos das práticas e suas conseqüências. A crítica no contexto da modernidade constitui-se ao mesmo tempo num instrumento de análise e uma normatividade; um problema que vincula ética e estética.
O movimento moderno assume o postulado de uma ação da crítica interna ao seus processos criativos. O caráter crítico de algumas obras de arquitetura, desloca leituras convencionais, ressaltando a mediação “transformadora” do texto crítico[4]. O potencial crítico da obra e do texto são de naturezas distintas e atuam de modo a atraírem a atenção um do outro.
O problema da liberdade para a arquitetura e a arte, evidentemente, não as torna autônomas dos campos do trabalho humano, contudo não é o caso da criação artística se dissolver no mundo da produção industrial. As vanguardas artísticas propõem-se a antecipar esteticamente as transformações da sociedade industrial, “revolucionando radicalmente as modalidades e finalidades da arte”. Esse signo crítico e construtivo das vanguardas artísticas transformou-se em atuação na realidade histórica, assumindo aspectos programáticos e críticos, que passam a assumir um papel de conduzir uma “política própria”.
Os movimentos artísticos definiram programas[5] e manifestos, que são textos funcionam dentro do conceito de poética[6]. Segundo Argan, estas compreendem os fatores do fazer artístico com base nas experiências e escolhas culturais, e na idéia de arte que o artista tenta concretizar em sua obra. A poética não é a arte, mas “cultura vocacionada para a arte”. As poéticas modernas deveriam eximir-se das visadas totalizadoras e sistemáticas; e em relação à crítica forneceriam parâmetros de reconhecimento da atualidade e capacidade de sobrevivência das tendências artísticas.
A definição do "ser moderno":
Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor - mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos. (...) ela [a modernidade] nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual como disse Marx, "tudo o que é sólido desmancha no ar".
BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar... (Companhia das Letras. 1985, p. 15)

[1]Conceitos de Hegel e Baudelaire lidos, In HABERMAS, Jürgen. O Discurso filosófico da modernidade.
[2]Weber, Max. Apud. ROUANET, S. P. Mal Estar na Modernidade.Companhia das Letras.
[3]SUBIRATS, Eduardo. Da Vanguarda ao Pós Moderno. Ed Nobel
[4]EINSEMAN. Peter. (1996). Estratégias del Signo. Giuseppe Terragni y la idea de un texto crítico. Arquitetura Viva. Madrid. n. 48, p. 66-69. mayo.-jun.
[5]Definição de programa como uma concretização provisória dos objetivos do projeto. CASTORIADIS. (1986). A Instituição Imaginária da sociedade. R.J.: Paz e Terra
[6]Conceito de ARGAN, Giulio C. Arte e Crítica de Arte. Editorial Estampa

2 comentários:

carlos disse...

Excelentes suas colocações. No momento cruciante, forem bem elucidativas o posicionamento assumido no seu texto. Parabéns, e se me permite, utilizarei como exemplificação sobre o movimento modernista no Brasil!
Marta Lima

marilda disse...

Consultei seu blog e gostei... rs! Beijos
Marilda Maracci